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'Entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa.'
Trecho da música 'La vie en rose', Edith Piaf
A recente edição do Prêmio Oscar, o mais cobiçado troféu da arte e ciência do cinema, trouxe o filme sobre a vida da cantora Edith Piaf de volta à mídia mundial.
Em uma disputa bastante acirrada, a francesa Marion Cotillard ficou, merecidamente, com o prêmio de melhor atriz, ao interpretar, com profundidade, as nuanças da vida intensa e infeliz da inesquecível Piaf.
Nos comentários de Stephen Holden, do The New York Times: “O mais impressionante mergulho de uma artista no corpo e alma de outra artista que jamais vi no cinema”. Dizem que no set, era como se Marion fosse tomada pelo “espírito” de Edith.
A busca e a percepção da felicidade, temática comum em vários filmes, é o “pano de fundo” sobre a extraordinária vida da cantora que nasceu nas escadarias externas de uma casa na Rue Belleville em Paris, (alguns consideram este fato uma lenda), e morreu com apenas 47 anos, eternizando, na música, seu talento incomparável.
O filme ‘Piaf: um hino ao amor” destaca os aspectos de uma vida perturbada, considerada muito infeliz. Edith, aos 5 anos, viveu em um prostíbulo, ficou cega em um período de sua infância, perambulou pelas ruas, perdeu a filha Marcelle vítima de meningite, e a dependência ao álcool e a outras drogas provocou problemas hepáticos irreversíveis que motivaram sua morte.
Buscou a felicidade, como todos nós fazemos, tentando o controle de sua própria vida e “saboreando” a satisfação de fazer o que gosta. O filme, que tenta reproduzir detalhes da sua vida, destaca uma insistência em cantar além dos limites da sua frágil saúde física.
Quando parecia ter encontrado a felicidade, na paixão pelo pugilista Marcel Cerdan, um acidente aéreo levou “o amor de sua vida” e a fez mergulhar em profunda depressão e no nefasto abuso de álcool e drogas.
Comentários sobre o filme e sobre a biografia da cantora deixam a impressão que toda esta “carga”, durante sua rápida existência, só poderia ter provocado contínuos momentos de infelicidade.
É óbvio que esta é uma análise superficial dos fatos. A percepção da felicidade não depende exclusivamente das externalidades. Traços da personalidade podem predispor as pessoas a interpretar suas experiências de vida de forma mais positiva e, portanto, conferindo maior tendência em “ser feliz”.
Ao se manifestar sobre o tema felicidade percebida, tratada no filme, o diretor Olivier Dahan arrisca: “Edith era muito mais visceral do que mostro no filme. Era muito mais alegre e muitíssimo mais depressiva”.
Para resolver a questão, em uma cena de alta emoção, a interpretação de Piaf penetra fundo no coração e toda tristeza de sua vida parece exorcizada, quando canta para todos, incluindo o que se acham infelizes: “Non, Je ne regrette rien”.
“Não ! Eu não lamento nada... Nem o bem que me fizeram, nem o mal – isso tudo me é igual... Minhas mágoas, meus prazeres, não preciso mais deles ...Não ! Não lamento nada, pois minha vida, minhas alegrias, hoje começam com você”.
Quem sabe a felicidade percebida seja isto: ter consciência do bem-estar interior e a verdadeira percepção de sua causa.
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